Muitas pessoas, depois do diagnóstico, passam a dar mais atenção a vitaminas, fibra e a uma alimentação “saudável”. Uma grande investigação de longa duração realizada em Itália sugere agora que não é só a tabela nutricional que importa. O nível de processamento industrial dos alimentos pode alterar de forma marcada as hipóteses de sobrevivência de sobreviventes de cancro - mesmo quando, no papel, calorias, gorduras e açúcar parecem estar dentro do aceitável.
Estudo de longa duração em Itália (Moli-sani): o que os investigadores observaram em 802 sobreviventes de cancro
Para esta análise, a equipa recorreu à conhecida Moli-sani, um estudo populacional do sul de Itália. Participaram 802 mulheres e homens com cancro já ultrapassado. Em média, passaram 8,4 anos entre o primeiro diagnóstico e a recolha detalhada dos dados alimentares. Depois disso, os cientistas acompanharam os participantes durante quase 15 anos.
Durante esse período, morreram 281 pessoas, das quais 149 devido a consequências da doença oncológica. Em seguida, os investigadores dividiram os participantes em três grupos, conforme a proporção de produtos altamente processados na alimentação - de “muito pouco” a “muito”.
"No terço com maior quantidade de alimentos fortemente processados, o risco de morrer por qualquer causa aumentou 48 por cento em comparação com o terço com menor quantidade."
No caso da mortalidade por cancro, o aumento foi ainda maior: 57 por cento. Os resultados foram publicados na revista científica “Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention” e foram repercutidos por vários meios de comunicação de ciência.
O efeito mantém-se mesmo após ajustes estatísticos
Para isolar o impacto de forma mais rigorosa, a equipa descontou diversos factores que poderiam distorcer a relação observada. Entre os elementos considerados estiveram:
- idade e sexo
- estatuto tabágico
- actividade física
- índice de massa corporal (IMC)
- tipos de terapias oncológicas recebidas
- adesão geral a um padrão alimentar mediterrânico
Mesmo com estes ajustes, a associação entre consumo elevado de produtos muito processados e maior mortalidade continuou bem visível. Ou seja: a diferença não ficou explicada apenas pelo balanço de nutrientes.
O que se entende por “alimentos ultra-processados”?
Muita gente associa esta categoria apenas a fast food, batatas fritas de pacote e refrigerantes. Porém, a definição científica é mais abrangente. Inclui alimentos feitos a partir de ingredientes muito modificados, frequentemente com listas extensas de componentes e vários aditivos.
Características típicas:
- amido, proteínas isoladas ou óleos vegetais em vez de alimentos integrais
- aromas, corantes, adoçantes e intensificadores de sabor
- emulsionantes, estabilizadores e espessantes
- texturas muito trabalhadas, deliberadamente “crocantes”, cremosas ou muito macias
Exemplos do dia-a-dia:
- snacks e batatas fritas já temperados
- pizza congelada e muitos pratos preparados
- barras de chocolate, bolachas e pastelaria embaladas
- cereais de pequeno-almoço açucarados
- alguns enchidos e produtos alternativos à carne
- bebidas “light” com adoçantes
Comparados com alimentos frescos ou pouco processados (como flocos de aveia, iogurte natural, legumes, fruta e leguminosas), estes produtos alteram a estrutura física do que se come - a chamada matriz alimentar. E essa matriz condiciona a forma como o organismo aproveita os nutrientes e como metabolismo e sistema imunitário reagem.
Como a alimentação muito processada pode sobrecarregar um organismo já fragilizado
A equipa procurou pistas que pudessem explicar biologicamente a ligação observada. Para isso, analisou dois indicadores:
- Proteína C-reactiva (PCR): marcador sanguíneo de inflamação no organismo
- Frequência cardíaca em repouso: um sinal mais subtil de carga no sistema cardiovascular
Quando estes factores entraram no modelo estatístico, a relação entre alimentos muito processados e mortalidade enfraqueceu em cerca de um terço. Isto sugere que inflamação persistente e um acréscimo de stress cardiovascular têm um papel central.
"Snacks especialmente salgados e petiscos “salgados” mostraram uma ligação marcante a um risco de morte mais elevado, o que aponta para um efeito cumulativo de momentos frequentes de petiscar."
Em pessoas cujo coração já foi exigido por quimioterapia ou radioterapia, qualquer pressão extra pode pesar mais. Um pulso ligeiramente elevado de forma crónica e processos inflamatórios prolongados funcionam como um “incêndio” discreto, mas contínuo, no corpo.
Porque os sobreviventes de cancro podem ser mais sensíveis
Após o tratamento, muitos órgãos recuperam lentamente. Mesmo anos depois, o equilíbrio hormonal, o metabolismo e a parede dos vasos sanguíneos podem não ter regressado ao estado inicial. Algumas pessoas desenvolvem hipertensão, alterações dos lípidos no sangue ou aumento de peso.
Uma alimentação que favoreça inflamação pode desestabilizar ainda mais este equilíbrio já frágil. Além disso, podem existir interacções com medicamentos e uma redução de massa muscular, o que diminui a capacidade do corpo para amortecer picos de açúcar e gordura.
Limitações do estudo - e porque, ainda assim, é robusto
Esta investigação não permite afirmar de forma definitiva que os alimentos fortemente processados causam directamente a morte. Trata-se de um estudo observacional. Os participantes reportaram hábitos alimentares através de questionários, o que torna inevitáveis imprecisões e erros de memória.
Também não foi possível dar um peso central à gravidade e à extensão dos tumores iniciais, porque existiam apenas dados limitados sobre esse ponto. É possível que pessoas com doença mais severa tivessem padrões alimentares diferentes desde o início, em comparação com quem teve formas mais ligeiras.
Ainda assim, a associação entre maior consumo de produtos muito processados e maior mortalidade manteve-se estável, mesmo após várias correcções estatísticas. Por isso, os autores consideram o grau de processamento um factor próprio - independente do total de calorias, açúcar ou gordura.
O que os sobreviventes de cancro podem retirar destes resultados na prática
Ninguém precisa de se transformar num perfeccionista da cozinha depois do diagnóstico. Os dados apontam mais para uma mudança de prioridade: menos produtos industriais, mais alimentos simples e reconhecíveis.
Uma abordagem realista para o quotidiano:
- Verificar a lista de ingredientes: quanto mais curta e compreensível, melhor. Se metade parece “química de laboratório”, vale a pena repensar.
- Escolher alimentos-base: iogurte natural em vez de sobremesas açucaradas; flocos de aveia em vez de cereais doces; frutos secos em vez de batatas fritas.
- Limitar refeições prontas: pizza congelada, lasanha e semelhantes não como rotina, mas como excepção ocasional.
- Repensar os snacks: palitos de legumes, fruta, uma sandes de queijo ou húmus com pão integral também saciam - sem uma lista interminável de aditivos.
- Alterar as bebidas: água, chá, café sem açúcar e sumos diluídos em vez de refrigerantes e “light”.
Quão depressa hábitos melhores podem fazer diferença
Mesmo mudanças pequenas podem notar-se: quem substitui, três noites por semana, batatas fritas e bolachas salgadas por um punhado de frutos secos, um pouco de queijo ou pipocas simples, reduz de forma clara aditivos, sal e gorduras refinadas. A glicemia tende a ficar mais estável, a pressão arterial pode descer e marcadores de inflamação podem diminuir.
Oncologistas, médicos de nutrição e médicos de família relatam repetidamente que doentes com mais comida fresca e menos preparados industriais muitas vezes dormem melhor, sentem mais energia e referem maior estabilidade psicológica. Estas melhorias subjectivas são difíceis de quantificar, mas podem tornar o dia-a-dia muito mais manejável.
Porque a “matriz alimentar” está a ganhar importância na ciência da nutrição
Na investigação nutricional, o foco está a deslocar-se do cálculo isolado de nutrientes para a estrutura global do alimento. A lógica é simples: uma maçã é mais do que a soma de frutose, fibra e vitamina C. A forma como fibras, água, compostos vegetais e açúcares estão organizados influencia a digestão, a saciedade e as respostas imunitárias.
Produtos muito processados tendem a desfazer essas estruturas. Açúcares e gorduras ficam disponíveis mais depressa, as bactérias intestinais recebem menos fibra, e emulsionantes e adoçantes podem irritar a barreira intestinal. Num organismo já marcado pela doença oncológica e pelos tratamentos, esta carga contínua pode ser a diferença entre uma saúde estável e uma saúde mais frágil.
Quem quer viver a longo prazo após um diagnóstico de cancro beneficia muito de vigilância médica regular, actividade física e cessação tabágica - e, ao que tudo indica, também de um olhar crítico para aquilo que, todos os dias, chega ao prato vindo de sacos, latas e embalagens.
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