No oeste de França, uma galinha de património quase esquecida tornou-se discretamente uma aliada de primeira linha contra um predador que se espalha rapidamente.
À medida que as vespas asiáticas avançam pela Europa e atacam colmeias de abelhas, uma antiga galinha bretã tem vindo a chamar a atenção de jardineiros e apicultores preocupados.
Uma crise com asas: porque é que a vespa asiática assusta os apicultores
A vespa asiática, Vespa velutina, chegou a França no início dos anos 2000, provavelmente escondida numa remessa de cerâmica. Desde então, espalhou-se por grande parte da Europa Ocidental, predando abelhas e outros polinizadores já fragilizados por pesticidas, perda de habitat e doenças.
À entrada de uma colmeia, a cena repete-se. A vespa fica suspensa no ar, espera que uma abelha campeira regresse carregada de néctar ou pólen, e depois ataca. Uma única vespa pode matar dezenas de abelhas por dia. Uma colónia inteira de vespas pode levar uma colmeia ao colapso devido ao stress e aos ataques sucessivos.
Muitos apicultores amadores sentem-se impotentes. Recorrem a armadilhas com garrafas de plástico, iscos açucarados ou inseticidas agressivos. Esses métodos também eliminam borboletas, abelhas silvestres e vespas inofensivas. Tratam o sintoma, não o sistema.
Uma pressão descontrolada de vespas junto das colmeias pode reduzir a produção de mel, enfraquecer as colónias antes do inverno e levar pequenos apiários a desistir.
A galinha de Janzé: um tesouro bretão irrequieto de volta após quase desaparecer
No centro desta história surge uma ave de plumagem preta brilhante com reflexos verdes: a galinha de Janzé, que recebe o nome de uma pequena localidade de Ille-et-Vilaine, na Bretanha. Esta raça local quase desapareceu nos anos 1980, até que um esforço de conservação do Écomusée de Rennes e do parque agrícola de Bintinais a trouxe de volta à paisagem.
As galinhas adultas pesam entre 1,5 e 2,5 quilos. Põem cerca de 150 ovos brancos por ano, com 55 a 60 gramas cada. No papel, parecem aves de capoeira como tantas outras. Mas o seu comportamento distingue-as.
Os criadores descrevem a Janzé como hiperativa, curiosa e incapaz de estar quieta. Na região chamam-lhe “a grande caminhante”. A alcunha resume bem o seu modo de vida: detesta o confinamento e passa os dias a vaguear, esgravatar e caçar. Inspeciona todos os cantos dos pomares, hortas e sebes, à procura de qualquer movimento na erva.
A galinha de Janzé funciona como uma pequena patrulha de penas: anda, observa, bica e segue em frente, hora após hora.
Com visão apurada e uma agilidade surpreendente, salta, ultrapassa pequenos obstáculos e reage rapidamente a qualquer inseto voador que desça demasiado. Minhocas, larvas de escaravelho, lagartas, gafanhotos e vespas fazem todos parte do menu.
Como uma galinha de capoeira enfrenta a vespa asiática
Para os apicultores, a cena mais marcante acontece junto das colmeias ou das árvores de fruto. As vespas asiáticas pairam à entrada das colmeias ou circulam em redor de maçãs e ameixas. As galinhas de Janzé reconhecem esse voo em ziguezague e entram em modo de caça.
Os observadores descrevem uma sequência simples. A galinha aproxima-se, com o pescoço esticado. Espera que a vespa desça um pouco mais. Depois vem uma bicada rápida, muitas vezes atingindo o inseto no ar ou no instante em que pousa. Numa segunda bicada, esmaga-o ou arranca-lhe a cabeça, e depois engole o corpo rico em proteínas.
Essa proteína é importante. As galinhas ativas precisam de proteínas animais para as penas, os músculos e a produção de ovos, e as vespas oferecem uma dose concentrada. O comportamento reforça-se a si próprio: a vespa deixa de ser uma ameaça e passa a ser um petisco valioso.
Uma rainha fecundada de vespa asiática comida na primavera pode significar menos 1.500 a 2.000 vespas na paisagem mais tarde nesse ano.
Um ensaio realizado num pomar biológico na Bretanha dá uma ideia do que isto pode significar à escala real. Cerca de 90 galinhas de Janzé foram soltas em três hectares plantados com árvores de fruto. Ao longo da estação, os produtores registaram uma forte redução das pragas de insetos, próxima dos 90%, e muito menos atividade de vespas à volta das árvores.
Ninguém afirma que as galinhas consigam eliminar as vespas em toda uma região. As vespas fazem ninhos no alto das árvores, em postes e edifícios. Muitas nunca passarão ao alcance de uma galinha. Mas nos arredores imediatos de colmeias e pomares, estas aves criam uma linha constante e móvel de pressão que as vespas têm de atravessar para se alimentarem.
Montar uma patrulha emplumada anti-vespa
Espaço, movimento e um verdadeiro terreno de caça
A eficácia da Janzé cai muito num espaço pequeno e fechado. Para caçar vespas e outras pragas do jardim, precisa de terreno para percorrer. Os criadores da Bretanha falam de uma “área de exploração” ativa, e não de um simples cercado. As aves patrulham sebes, montes de composto, zonas de fruta caída e bordas soalheiras onde vespas e outros insetos se juntam com frequência.
Um pequeno quintal não exclui esta raça, mas as aves devem ter acesso ao maior número possível de micro-habitats: relva curta, zonas mais bravas, arbustos baixos e algumas áreas sombreadas. Cercados estreitos e despidos levam-nas ao tédio, fazendo com que biquem penas em vez de insetos.
Estratégia de alimentação: não encher demasiado o comedouro
Fabrice Jan, responsável pelo parque agropastoril do ecomuseu de Bintinais, deixa um aviso simples: alimentar em excesso mata o instinto de caça. Se as galinhas receberem todas as calorias que querem no comedouro, passam mais tempo junto dele e menos debaixo das árvores.
A ideia não é deixá-las com fome, mas manter uma parte da dieta ligada à procura natural de alimento. Uma abordagem equilibrada combina uma ração medida de grãos com acesso diário a terreno variado. Assim, as horas de maior apetite levam-nas a procurar larvas, escaravelhos e vespas.
- Manhã: ração controlada de grãos para cobrir as necessidades básicas
- Durante o dia: livre circulação junto de colmeias, pomares e hortas
- À noite: verificação visual rápida e galinheiro bem fechado contra predadores
Custos e detalhes práticos
Criadores especializados no oeste de França vendem galinhas pretas de Janzé por cerca de 30 a 50 euros por ave, consoante a linhagem e a idade. As galinhas jovens e ativas tendem a dar os melhores resultados junto das colmeias. Os galos ajudam a manter a linha, mas também trazem ruído; os vizinhos podem não partilhar o mesmo entusiasmo.
| Aspeto | Galinha de Janzé |
|---|---|
| Função principal | Predadora de insetos e vespas, além de poedeira |
| Ovos por ano | Cerca de 150 ovos brancos |
| Ambiente ideal | Ar livre, pomares, apiários, jardins grandes |
| Custo de compra | 30 €–50 € por galinha |
| Benefícios extra | Aeração do solo, fertilização, “animação” do quintal |
Trabalho ao longo de todo o ano: mais do que controlo de vespas
A vespa asiática pode ser o tema principal, mas o impacto da Janzé faz-se sentir ao longo de todo o ano. Na primavera, as galinhas atacam larvas do solo e lagartas jovens que mais tarde roem folhas e frutos pequenos. Esgravatam levemente à volta das plantas novas, o que pode perturbar algumas plântulas, mas também quebra a crosta do solo e melhora a aeração.
Durante o verão, patrulham a sombra debaixo de árvores e arbustos, onde vespas, moscas e outros insetos descansam. Limpam a fruta caída antes que apodreça e atraia ainda mais insetos. No outono, continuam o trabalho debaixo das árvores, remexendo a folhagem acumulada e caçando larvas que ali passam o inverno.
Todo este movimento traz um efeito secundário útil: fertilizante gratuito. Os seus excrementos devolvem azoto e fósforo ao solo. Combinada com o esgravatar, esta matéria orgânica mistura-se rapidamente. Alguns jardineiros usam vedações móveis para “rodar” as galinhas por diferentes zonas e distribuir esse benefício.
Para pequenas explorações e jardineiros dedicados, um bando de Janzé funciona como controlo de pragas, trabalhadora do solo e produtora de ovos, tudo reunido num conjunto cheio de vida.
Limites, riscos e como isto poderia ser aplicado noutros locais
Nenhuma medida de controlo biológico vem sem compromissos. As galinhas podem danificar canteiros delicados, afastar a cobertura morta das plantas jovens e comer insetos benéficos juntamente com as pragas. Também correm risco de serem atacadas por raposas, cães e aves de rapina. Os galinheiros devem fechar à noite, e as cercas têm de ser adaptadas aos predadores locais.
As vespas asiáticas também se adaptam. Em zonas com forte presença de galinhas, podem deslocar a caça para áreas mais altas nas copas das árvores ou para perto da água. As galinhas tornam-se, assim, uma ferramenta entre várias, e não uma solução milagrosa. Armadilhas seletivas, deteção de ninhos e comunicação comunitária continuam a ser importantes, sobretudo em áreas urbanas onde ter aves não é opção.
O caso da Janzé levanta uma questão mais ampla para outras regiões afetadas por insetos invasores, desde a spotted lanternfly nos Estados Unidos até aos percevejos em partes do sul da Europa. Raças locais ou tradicionais de galinhas e patos conservam muitas vezes fortes instintos de procura de alimento que os híbridos industriais perderam. Os agricultores poderiam testar quais as aves que mostram gosto pelas espécies problemáticas e integrá-las de forma intencional em planos de gestão de pragas.
Para os apicultores curiosos com esta abordagem, o melhor é começar com um pequeno teste: algumas galinhas ágeis, observação do comportamento junto das colmeias a uma distância segura, e ajustes na vedação e na alimentação. Essa observação simples no terreno, repetida em muitos jardins, pode ajudar a moldar a próxima geração de defesas vivas e de baixa tecnologia contra o avanço da vespa asiática.
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